domingo, 19 de dezembro de 2010

Feliz Natal

O Natal é vermelho

Rosa Pena




A mãe já estava entrando na terceira idade e começava a sentir aquela pontinha de desânimo, aquele tanto faz como tanto fez, entre eles... armar a árvore de Natal, fazer ceia.


E pensar que ela sempre fez uma questão danada de muitos enfeites, do presépio, da guirlanda na porta, de um peru maravilhoso. Foram festas lindas, fantásticas. E pensar, e pensar, e pensar! Pronto: Agora nada de pensar, muito menos navegar na nostalgia. Saudade vá procurar outro coração, pois esse não lhe pertence. Replay de Natal fica por conta do Rei RC que só varia a roupa de branco para azul ou de azul para branco. Inovar é a palavra de ordem.

O marido sempre acompanhou suas resoluções. Dos sete filhos agora só dois moravam com eles naquela casa linda e imensa. Empregados nessa época folgam. O trabalho e o silêncio dobram.

O temporão insistiu tanto na confecção da árvore que ela acabou por enfeitar displicentemente a antiga num cantinho qualquer da casa.

Como cada um dos outros filhos passaria num lugar diferente, sugeriu impondo aos quatro que fossem cear num quiosque em frente à tão badalada árvore da Lagoa. Dois toparam, mas levou um susto quando o caçulinha disse:

—Cear fora de casa? Logo na data em que as árvores armadas em casa ficam mais bonitas... O menino não nasce mais?

Foi ao supermercado comprou um tender cheia de love e muitas cerejas. O Natal é pintado de vermelho, é vida, não é luto.


Mas o Rei vai estar de azul e cheio de flores. São tantas emoções que a gente vive por mais que tenhamos quase certeza que elas se esgotaram com o tempo.



 
*livro: TARJA BRANCA (2010)

sábado, 18 de dezembro de 2010

O papagaio.



O cam­pinho como era cha­mado o ter­reno baldio que fi­cava atrás da casa àquela hora estava va­zio. O que lhe proporcionou uma alegria safada.

Queria testar primei­ra­mente antes de mostrar aos amigos o papagaio que fizera com ajuda do pai na noite anterior.

Olhando para os lados viu que o dia estava exce­lente. O vento so­prava docemente o que prometia boa diversão. Paci­ente esticou a li­nha e sem muita dificul­dade conseguiu colocar o papa­gaio no ar.

A linha quase totalmente esti­rada produzia na sua mão vi­brações pequena que ao seu comando o papagaio subia, descia e com pequenos toques na linha fazia com que ele embi­casse ora para a esquerda, ora para a direita.

Já previa a estupefação dos amigos, as ex­clamações de admiração. Veriam que agora eles tinham um compe­tidor à altura, sor­riu satisfeito.

Nisso ao dar um puxão um pouco mais violento, a linha perdeu a força. O pipa estava caindo. Largou a lata de li­nha e saiu cor­rendo. O campinho não era grande, mas o vento para desespero do ga­roto arrastou o pipa para o outro lado da rua.

Estava quase perto do pipa caído no asfalto quando viu surgir o carro vindo pelo lado es­querdo. Aflito ele acelerou as pernas e gritando e gesticu­lando os bra­ços procurou chamar a atenção do mo­torista.

Porém o veí­culo au­mentou a velocidade não dando oportunidade para que ele che­gasse a tempo para salvar o papagaio. Com os olhos fixos cheios de lá­grimas pegou os destroços do chão e com passos lentos en­trou em casa.

Pastorelli

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Turbilhão

 Foto j.almstadter

Angélica T. Almstadter
 

Sem direção e nenhum freio
eles entram e saem
silenciosos algumas vezes
ou rasgando emoções
arrebentando as comportas
que me banham soluçantes
 

Liberam alegrias
lembranças doces ou doídas
estimulando
inspirando
deprimindo
 

Vorazes como a fome
devoram as palavras
que regurgitam
incessantemente
... sobre o alvo papel
vai se livrando delas
uma a uma num ritual
emocionalmente caótico

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

O menino e o tio.


Feito intrépido Rocicler enfrentando a poeirenta estrada, o velho caminhão apelidado carinhosa­mente de Mazzarope resfolegava em mais uma viagem transportando o pessoal.

Em pé na carroceria junto com os outros, ele se equilibrava numa disfar­çada brincadeira para ver quem permanece­ria mais tempo em pé. Brincadeira estúpida, não gostava. Preferia ficar deitado no assoalho de tá­buas brancas que exalava cheiro de cevada con­templando o céu azul, mas como estavam em mais de vinte pes­soas era obrigado a participar dessa brincadeira boba.

Seus olhos castanhos esverdeados claro lembravam os olhos da vó dardeja­vam um inquieto brilho de raiva, duro, ma­goado, de quem es­pera uma oportunidade, e quando ela chegasse não iria perdê-la, ah! não, não iria perdê-la por nada, seria seu passaporte para a vida futura.

A humilhação quei­mava na mente como ferro em brasa. Os ouvidos martelavam as gozações, as risadas ao verem ele sem calça, nu, pelado na frente de todos. O tio, irmão mais velho da sua mãe, segurando sua calça era quem mais go­zava da sua cara. Como odiara o tio, odiara aquele momento. Seus olhos fuzilaram o tio, seus dentes rangeram um contra o outro num ódio imenso. Nada pudera fa­zer, a não ser se esconder. Num safanão arrancara a calça da mão do tio e fugira. Ah! Ele não perdia por esperar.

Che­gavam à cidade.

Para­riam na casa do tio como faziam toda vez que havia matança de porcos, para a distribuição do quinhão perten­centes a cada uma das fa­mílias. Era nesse momento que ele iria ter a chance. Era só ficar de olho aberto, vigi­ando.

En­quanto o velho Mazzarope atravessava a rodovia en­trando na cidade, revia os acontecimentos que gostaria nunca ter acontecido. Descendo do ca­mi­nhão no pátio da fazenda, a pri­meira coisa que viu foi os porcos sacrifi­cados. Um estava em cima da mesa sendo destrinchado pelas mulhe­res, o outro boiava num tacho de água super quente, e logo mais adi­ante, perto do chiqueiro, um terceiro guinchava e se esperneava perce­bendo seu des­tino. Por fim, se rendendo deixou-se esfaquear pela mão firme do tio que decidido enterrou fundo a faca pontuda na carne do animal espirrando sangue que fora recolhido numa grande caneca.

E quando arrumavam as coisas para vir em­bora, o tio teve a infeliz idéia de arran­car sua calça na frente de todos. O que lhe doía não era o fato de ficar nu, as gozações, os deboches, as ri­sadas das meninas, das mulheres, e sim, o não poder se defender, o não poder revidar o tio sendo obrigado ao vexame.

Vigiando os movi­mentos viu quando o tio ao chegarem foi deitar-se para um pequeno e leve descanso. Esperou até que o tio fechou os olhos e devagar, sem fazer ru­ído, chegou bem perto. Sentia até o hálito do ronco.

Não esperou mais. Desceu a mão em cheio, foi um tapa estrondoso no rosto do tio que assustado não teve tempo de segurar o so­brinho que em desabalada carreira fugia do quarto.

A partir desse dia nunca mais falou com o tio.

Pastorelli

domingo, 5 de dezembro de 2010

Nódoa


Angélica T. Almstadter
 

Cuspi a alma em fagulhas,
Sobre a toalha impecavelmente branca.
Com alma sangrei vinho do brinde.
Ficou incrustado no linho mesa,
Sob seu olhar atônito, a marca exata
Da minha mais nobre emoção.
Sei que acalentará com cuidado
Até juntar todos os cacos,
Do meu amor derramado.

 
Uma taça de esperança tinta,
Para bombear meu coração apagado.
Um silêncio precioso para recompor
O espelho da minh'alma estilhaçada.

Meu pai.


Embriagado ele não perdia a consciência. Lembrava-se de tudo o que havia feito e dito. Parecia que o álcool desobstruía o seu inconsciente, onde há muito tempo guardado no sótão da sua vida, estava o porquê de agir como agia.

O que não conseguia dizer sóbrio, não sei por que motivo - talvez timidez, acanhamento, inferioridade ou mágoa - alcoolizado ele soltava a língua e toda a sua dor vinha à flor da pele. Não precisava do álcool para incutir, para ter coragem. Pois certa vez, estando sóbrio, defendeu-me a ponto de se atracar com um sujeito maior que ele. Fato que muito me deixou contente. Foi como se tivesse dito que me amava.

A partir de então, passei a vê-lo com outro olhar, de outra maneira, e penso, comecei a compreendê-lo melhor. Ele não era de muitas palavras, falava quase nada. Era preciso ler nas entrelinhas dos seus gestos, nos vãos dos teus olhos, como dizia minha mãe: ”É só olhar nos vãos dos teus olhos para saber se mente ou não”.

Um moleirão, do meu ponto de vista, eu, que sempre o comparava com os tios, passados todos esses anos, mais de vinte anos da sua morte, repensando a vida percebo que o compreendia e ele sabia disso, mesmo não dizendo a ele.

Era um acomodado – e este jeito de ser foi à única coisa que herdei dele - mas não era covarde. Não possuía ambição, muito menos inveja. Apenas ressentia-se de algo que nunca descobri.

Em sua visão modesta, o que tinha era suficiente. Para que querer mais? Não tinha jeito e não sabia ser carinhoso. Criado num ambiente rude, sem carinho nenhum, a maior parte da vida sem os pais, viveu a adolescência e a juventude sob o comando férreo do irmão mais velho. Talvez, isso era o motivo do seu ressentimento.

A meu ver, seus dois maiores defeitos foram: não ser ambicioso e o impulso desenfreado pela bebida. Não ter ambição até que não é defeito, porém, beber, ah! Este era terrível. Todo o dia chegava meio embriagado. As sextas então! Por ser dia de fundição, serviço pesado, terminava mais cedo, ele e os amigos, principalmente se tudo corria bem, sem acidentes ou atraso no planejado, iam para o bar festejar o dia bem sucedido.

Ah! Chegava em casa trançando as pernas, falando pelos cotovelos, repetitivo, xingando, blasfemando, nunca se referindo à mulher e aos filhos, sempre aos parentes, acusando-os da vida que levava. Quantas vezes à mesa, suado, sujo, fedendo, querendo jantar. E, enquanto esperava a mulher esquentar a janta, dormia sentado. Chegava a passar a noite assim, quando não escorregava para o chão. A mulher e os filhos não tinham força para levá-lo para a cama. Um homenzarrão de quase dois metros, uns oitenta quilos ou mais, como tirá-lo do chão? Ali ficava. A única coisa a fazer, era jogar um cobertor por cima dele.

O mais espantoso era seu relógio biológico. Todo o dia no mesmo horário, antes de todos, ele acordava. Tomava banho, fazia café, buscava pão, alimentava-se e saía pro trabalho. Todos os dias. De segunda a segunda.

A mulher mordia-se de tristeza. Para ajudar no orçamento, pedalava sua máquina de costura, cuidava da casa e dos filhos, não deixando faltar nada. Ele não gostava de vê-la costurando para os outros. Ela se angustiava para pagar as despesas que faziam no armazém ou quando vencia o aluguel. Ele não se preocupava. Dizia:

“Você é boba, mulher. Fica se matando. Pra tudo há de se dar um jeito”.

E pra tudo ele dava um jeito. Não sei como fazia. Comprava fiado no bar, na padaria, no armazém, mas nunca ficou devendo.

Se alguém caía de cama doente, preocupava-se além do que devia. Fazia todos os gostos do paciente. Uma vez deixou de trabalhar quase uma semana, só porque a filha doente pediu-lhe que ficasse ao lado dela. Ele ficou. Só saía do lado da filha para ir ao banheiro. Até que um dia chegou o boy dizendo que o chefe estava chamando ele.

Quando sofreu o acidente, ao sair do hospital, estava sem dinheiro. Seu irmão comprou os remédios sem que ele soubesse. Durante uma semana ele seguiu as recomendações médicas. Porém, um dia, chegou embriagado. A mulher deu bronca, preocupada e, sem querer, falou que o cunhado comprara os remédios.

No mesmo instante sua fisionomia transformou-se. Possesso, despejou um por um os remédios no vaso sanitário e puxou a descarga. A partir deste dia nunca mais tomou nenhum remédio.

Anos depois, a mulher disse aos filhos:

“Seu pai não está bem. Faz dias que ele não bebe”.

Dois dias mais tarde, ao chegar do serviço, respirando com dificuldade, falando pausadamente, pediu:

“Me levem ao hospital. Não estou passando bem”.

Passou por vários exames e foi constatado tumor no estômago. Operado, um mês depois, veio falecer. Sozinho no hospital.

Pastorelli



segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Ludo.


Decidirá logo de manhã enquanto tomava o café.

Não deixaria mais os fantasmas se alimentarem das lembranças coladas nos objetos que ao longo dos anos foram se amontoando.

Assim, com determinação estava a remexer nos esquecidos empoeirados cheirando a mofo. Mexendo aqui, retirando um objeto dali, foi sendo invadida por uma onda de sensação envolvendo sua alma que, extática, deixou-se levar.

Era mais ou menos como uma ferida aberta que a saudade abria levando-a pela surpresa, as forças tomaram outro alento, e como renovada, foi empilhando o que deveria ser jogado fora.

De repente escutou um som. Pareciam dados caindo em cima de madeira. O que seria? Procurou. Era um som imperceptível. Mas agora, estava mais nítido, mais alto, mais próximo. Sorriu. Que bobagem pensar nessas coisas! Sua imaginação cheia de filmes... que bobagem. Fez um gesto como se dissesse: Isso é idiotice.

Continuou com o serviço. Nisso seus olhos pousou no tabuleiro encostado a parede. Era dali que vinha o barulho de dados. Sim! Era dali. Dava para ouvir com nitidez os dados correndo pelo tabuleiro. Pegou o tabuleiro e colocou em cima de um caixote que estava perto. Não tinha mais dúvidas. O som que ouvia era dali. Olhou para os lados. Onde estavam as pedras. Revirou as coisas. Ah! Aqui estão.

Ajoelhou-se em frente ao caixote. Foi colocando as pedras, uma por uma em suas respectivas casas. As amarelas, as vermelhas, as pretas e as azuis, cada cor com quatro pedras. Quando colocou a última pedra no tabuleiro com desenhos gastos, deixando aparecer o rústico da madeira, ouviu alguém chegando. Foi ver quem era.

- Ah! O que houve tio? O senhor não era para...

- Sim... era... mas...

- O que aconteceu, tio?

- O seu filho...

- O que tem ele?

- Está na Santa Casa.

- Na Santa Casa? Aí minha Nossa Senhora...

- Calma, não aconteceu nada.

- Como não aconteceu nada se ele está na Santa Casa?

- Ele quebrou só a perna. Já estão trazendo ele para cá. Arruma a cama que ele vai ficar um bom par de tempos deitado sem se mexer.

Dito e feito. Quando ela aflita chegou no corredor, vinham trazendo o filho todo refestelado como se nada tivesse acontecido, numa cama de hospital. Junto estavam os primos, os irmãos, o pai, os enfermeiros, todos falando ao mesmo tempo para uma mãe assustada. Ao ver todo aquele alvoroço começou a chorar.

- Que é isso, mulher? Larga de ser boba, não vê que nosso filho está bem; disse o pai abraçando a esposa.

Arrumaram a cama onde ele ia ficar os três meses deitados. Pouco tempo depois à engrenagem rodava de novo nos eixos.
Passados dois dias, o cunhado chega entrando no quarto.

- Olha o que eu fiz, diz.

E coloca o tabuleiro no colo do sobrinho. E daquele dia em diante a casa não teve mais sossego. Tinha sempre alguém jogando Bodum com ele. Durante os três meses, só se ouvia risadas, torcidas, palavrões, gritos e o barulho dos dados rolando no tabuleiro de madeira.

- De quem é a vez?

- É a sua.

- Não, é a minha.

- Não rouba seu ladrão!

- Não deixem a vermelha entrar.

- Aí, viva! Pensa que vai ganhar?

E assim era, quando não eram os irmãos, eram os primos, os tios, as tias, sempre que chegavam corriam lá para o quarto do enfermo.

- E aí, vamos jogar?

Às vezes as jogadas demoravam em acabar, chegando a avançar a noite adentro. Assim foram os três meses. O tabuleiro ficou gasto. Os quadriculados sumiram. De tanto baterem o copinho em cima e arrastarem as redondas pedras de madeira as cores sumiram.

Aqui é a vermelha. Ali as pretas. Amarela no outro canto ao lado da azul. Já sabia de cor a colocação das pedras. Passou os dedos contornando cada linha, cada casa, cada quadrado, ouvindo as vozes, as risadas...

Uma lágrima deslizou caindo bem no meio do tabuleiro.

Ela se levantou. Da porta olhou para o interior, depois para o tabuleiro e viu todos eles, um por um, ali em volta jogando Bodum.

- Não vou... talvez outro dia eu continuo com a limpeza.

Saiu fechando a porta e passando a mão nos olhos.

As vozes, o barulho dos dados, as risadas, os gritos de ganhei, ainda continuaram por um longo tempo.

Pastorelli

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Bocejo - odete ronchi baltazar

 
Bocejo
 
odete ronchi baltazar
 
É pela manhã
que sinto a tua falta...
É quando acordo e
espalho a preguiça entre os lençóis,
quando me viro e não te vejo
que sinto a falta dos meus sóis
perdidos em teu olhar.
 
Falta-me o côncavo do teu corpo
que eu preencho com
ternura, pernas, braços e pés.
Falta-me o teu resmungar rouco,
o teu cabelo revirado,
falta o teu bocejo (nada) poético,
falta a tua roupa largada de qualquer jeito,
falta a tua displicência na hora de amar.
 
Que posso fazer?
Levanto-me,
visto-me com a tua ausência,
calço chinelos
 e espanto o sonho que não quer acordar.
Lavo depressa na torneira a minha decepção.
O dia começou mais uma vez.
Deixemos de lado a emoção.
 
odeteronchibaltazar

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

olhos de ressaca

angélica t. almstadter
 
mataram meu humor
na curva de uma palavra
o riso ficou pendurado
num canto sem graça da boca
 
minha voz foi encoberta
pelo som dos silêncios
entreolhados cúmplices
 
meus olhos pensos
soluçaram de dor
e não mais sairam
do porta-retratos da sala

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Intimidade com a morte.


O estômago roncava. Sentia uma sensação esquisita. Deveria ser o café que tomara as pressas antes de vir para cá, pensou. Precisava ficar andando de um lado para outro para aliviar um pouco a sensação. Olhou o relógio, três horas da madrugada. Faltava muito tempo ainda. Também porque fora marcar para tão tarde? Na esperança de vir alguém? Seus parentes e amigos eram aqueles que estavam ali. O frio gelava a carne cansada. Ainda bem que não ventava. Nada se extingue, o fim é o princípio. Será verdade? Realmente se for fazer uma análise rigorosa nada se extingue, há sempre uma transformação moldando as coisas. A morte é uma transição da matéria onde à vida escapa por entre osdedos dos sentimentos. Nego a morte para tentar chegar além do esquecimento.Nisso o carro fúnebre entrou de ré no acostamento. Mais um que chegava para a sua derradeira viagem.
Os funcionários retiraram um caixão grande, bonito, bem envernizado. Todos comentaram o tamanho do caixão. E o pessoal que o acompanhavam, a maioria estavam vestido de branco.Será pai de santo? Ou uma mãe de santo. Não deu atenção, seguiu para o outro lado, tentando espantar o frio.
Andou até chegar no fim do corredor. Ficou longo tempo parado com os olhos mortiços de sono contemplando seu vulto refletido no sujo vidro da porta. Não se reconhecia, ou melhor, se reconhecia, mas certa dificuldade lhe dizia que o que via era apenas uma fútil imagem dele mesmo.
Imagem falsa de um ser que desejava estar longe dali. Não era ele, e, no entanto, se virou ao ouvir que alguém se aproximava. Que droga, não podia pelo menos ficar um pouco sozinho com seus próprios pensamentos? Aliviado suspirou ao notar o ruído sumindo na distância daquelas paredes. Abriu a porta e saiu para a madrugada fria. O ar o reanimou um pouco. Deu uma volta pelo prédio velho da prefeitura. Parou em frente à placa. Aquele edifício fora inaugurado por então prefeito Jânio da Silva Quadros. Já era a terceira vez que lia a placa. Voltou a sentar no banco perto da porta.
Estava evitando entrar e ver sua mãe no caixão. Não queria ver, não gostava, tinha a impressão que aquela seria à última imagem dela que ficaria gravada na sua mente. Lembrou de uma história que sua mãe vivia sempre contando. E que ultimamente, sempre que se começava a falar em velório, sua irmã contava. O tio Antônio, casado com uma irmã do seu pai, falecera, estava sendo velado em casa.
Naquele tempo era raro um defunto ser velado no cemitério. Ele não queria ir, mas como ordem de pai é ordem, foi obrigado a ir. O tempo todo ficou na calçada, nem tinha coragem para entrar e cumprimentar a tia e os primos, por não querer ver o caixão. E aos poucos, aproximava, criando coragem para entrar, e no instante em que estava na porta, transpondo a soleira, de imprevisto uma mulher apareceu gritando atrás de dele: - Aí, o que fizeram com o meu querido irmãozinho. Você não podia morrer, gosto de você. Levado pelo susto, foi empurrando para dentro da sala, quase derrubando o caixão e dando de cara com a cara cadavérica do tio. Ele já era magro, careca, sem dentes, e deitado no caixão envolto em flores, estava pior que a cara do Michael Jackson. Ele começou tremer, a suar, sem saber o que fazer sendo empurrando pela mulher que não parava de gritar, estava quase desmaiando. A mãe vendo a aflição do filho puxou o coitado tirando ele dali. Levou para a cozinha e deu um copo de água.
Ele não voltou mais para a sala, mais tarde foi levado para casa.
Que ele se lembre esse foi o seu primeiro encontro ou que teve a sua primeira intimidade com a morte. Isto é, que teve uma noção do que era a morte. Das outras vezes fora sempre alguém distante ou vizinho, com o falecimento do cunhado do seu pai poderia dizer que foi a primeira vez que viu a morte próxima dele. Quando os agentes funerários chegaram, ele se distanciou, não quis presenciar o momento da tirada do corpo da mãe da cama e ser colocada no caixão. E grato ficou ao saber que não precisava acompanhar o motorista no carro fúnebre. No enterro do pai, não lembra porque motivo teve que ir junto com o motorista até o cemitério. O pai fora velado em casa, talvez seja por isso. Certos instantes da vida ficam nítidos na mente esperando apenas o momento para vir à tona. É pensamentos que o faz seguir cada passagem da vida sendo ou não necessária. E os pensamentos ora em forma de palavras, ora em forma de cenas quase cinematográficas ajudava a passar o tempo. No início da doença da mãe perguntava freqüentemente o porquê disso ou o porquê daquilo, não se conformava com a situação caminhando daquela maneira, de um jeito que o sentir se tornasse descontrolado, chegando às vezes a perder a paciência. Sentiu a azia aumentar, queimar trazendo o gosto do café na boca. Pensou ir ao banheiro e vomitar, desistiu, não tinha coragem de enfiar o dedo na garganta e provocar o vomito. Foi até a lanchonete, talvez tomando alguma coisa passasse a azia. Pediu uma cerveja e um lanche. Tomava e comia calmamente se despreocupando um pouco com o que se passava a sua volta. Pessoas que vinham e saiam a todo o momento dentro daquele silencio que era o prantear da morte, figura indesejada e que volta e meia aparecia, ou melhor, que sempre esta ao nosso lado, a gente que não a percebe. Riu ao pensar nisso. Tudo isso eram apenas palavras que se juntando a outras formavam o sentir concreto da vida. Era apenas preciso coragem para pronunciá-las. Ele não tinha e nunca tivera essa coragem, essa audácia de expressar o seu sentir em palavras que soassem concretamente a vida, tanto a vida real como a vida irreal. Aliás, chegou à conclusão que sempre vivera com palavras que concretizavam a vida irreal que até aquele momento. Talvez se ele tivesse concretizado mais as palavras em sons e não em pensamentos, pudesse sua vida ter sido outra, diferente, mais dinâmica. Um exemplo disso estava no dia em que sua avó morrera.
Não lembrava exatamente do falecimento da avó. Não saberia dizer se já estava morando em São Paulo. E muito menos o detalhe do velório, do enterro, quem estava e quem não estava. Recordava-se de uma cena apenas: da mãe chorando. Estavam numa sala e, sentada na poltrona, sua mãe chorava. Ficou longo tempo observando o choro descontrolado da mãe sem dizer uma palavra. Uma palavra que pudesse amenizar o sofrimento materno. Descobriu que ao ser pressionado não sabia agir ou o que dizer. A avó apesar de ter sido pessoa boa não poderia afirmar que gostava dela imensamente para chorar sua morte. Sentia é claro, mas não era um sentimento insuportável que o tempo aos poucos amenizaria. Esse sentimento bem antes da morte da avó já estava amenizado, o que não conseguiria fazer sua mãe entender. Sentia e até entendia o sofrimento da mãe e dos outros, o que não entendia e, muito menos teria que explicar era o seu sentimento. As fibras da sua mente sofriam e choravam a morte da avó, patético choro e maneira de expressar a dor. Dor que ele guardava apenas para si ao invés de expressá-la, de carinhosamente reconfortar mostrando seu amor para a avó e para com a mãe. No entanto preferiu ficar ali impassível, frio, sem dizer nada, apenas vendo ridiculamente o choro dos outros. Talvez, seu íntimo quisesse ou sentisse menos oprimido, mas quem garantiria que era isso?
São coisas e sentimentos que muito tempo depois lhe é revelados. Assim tem que ser, não pode ser de outra maneira. Terminou de tomar a cerveja e comer o lanche. O dia já estava amanhecendo, mas o sol ainda não tinha aparecido. Continuou perambulando de um lado para o outro. O pessoal que passara a noite toda estava uns aqui conversando outros sentados nas cadeiras cochilando. Já sabia antecipadamente que não viriam todos que imaginara deveriam vir. Nesse momento desejou ter antecipado a hora do enterro. Como tinha marcado para a última hora, teria que esperar até o momento final. A sua mãe seria a penúltima a ser enterrada. Até o presente momento já saíram quase todos os que junto com ela chegaram, ou depois dela. Nisso lhe perguntaram se seguraria a alça do caixão.
Respondeu que não, não queria nem chegar perto. Não sentia o peito oprimido, e muito menos leve como deveria ser depois de uma longa opressão emotiva. E mais uma vez descobriu que já passara por isso, por momentos como aquele e com o mesmo grau de sentimento. Começaram o terço e as vozes se elevaram num grau de tonalidade só. De repente, como começou, a reza tinha terminado. O funcionário da prefeitura chegou perto dele e perguntou se fora ele que tinha assinados os papéis. E diante da sua resposta positiva o funcionário disse que os familiares é que tinham que fechar o caixão e levar até o carro fúnebre, que fizesse isso logo para não atrasar, pois tinha ainda outros enterros para fazer e não podia ficar esperando. Diante disso não tendo alternativa, teve que entrar no velório eajudar o pessoal a fechar o caixão. Evitou olhar o rosto da mãe. Sentia o corpo queimar, o rosto vermelho, pois sabia que todos o olhavam seus movimentos, sua expressão. Durante o trajeto procurou puxar conversa com o motorista para fugir de ter o que pensar. Parando a certa distância da cova, retiraram o caixão e passaram para as mãos dos coveiros. Reinava um silencio suave, sem vento, um sol não muito quente. Logo que a última pá de terra foi jogada e os coveiros deram o serviço por terminado, despediu-se dos poucos parentes e amigos, entrou no carro e foi embora. Mais uma etapa da sua vida estava encerrada ali naquele monte de terra que cobria sua mãe.

Pastorelli

sábado, 13 de novembro de 2010

Out

Angélica T. Almstadter
 
Chic é ousar ser
é não negar o tesão,
muitos nãos
elevam a auto estima.
 
Estar on as vezes
é muito vazio;
Estar out
é uma sacada
pra grandes vôos.
 
A solidão é off
a alegria está out;
um clic e se acende.
 
Mas chic mesmo
é saber ser out
curtir a solidão
gostar muito de ser
beber o vazio
e voar com alegria.

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

os mil tons e sons da solidão



angélica t. almstadter


acenando ao vento se afasta,
já fora do alcance dos sons,
sua obtusa lembrança gasta
na trilha matizes em mil tons


a rede rompeu laços tantos
é hora de navegar a solidão
espraiar em outros recantos,
com fúria, sua autêntica ilusão


sem traves, obstáculos ou afins
sobre os próprios passos
poder calçar solfejos de serafins


um brinde borbulha na taça
a palavra se sujeita a míngua
de qualquer língua em ameaça

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Descobertas.


Estavam calados. Um de frente para o outro. E entre eles a toalha tendo em cima a guloseima que trouxeram. O sol brilhava numa meia-luz projetando claridade plácida que a sombra da frondosa árvore proporcionava. Cláudio sentia a morosidade do momento a se deslumbrar no horizonte de suas vidas. Tinha o olhar concentrado no que fazia. Era esse seu jeito, sua característica a lhe dar requinte juvenil. Sandro por sua vez, trazia no olhar o brilho perdido na distancia que ultrapassava aquele momento sereno, as vezes apático, corriqueiro, mas de raro fluir de sentimentos. Pensou em registrar algum som com sua voz de barítono, mas desistiu. Não tinha competência para explicar o que se passava no pensamento. E também não sabia se valia à pena, pois Cláudio talvez não estivesse interessado. É idiotice pensar em falar e ficar quieto.
- Idiota! - pensou.
Cláudio continuava com a atenção voltada ao que fazia. Comia um pedaço de pizza e bebia coca, isto é, entornava boca adentro o que restara da comida. Ao ver a esfomeação do amigo, uma pequena, mas nítida náusea subiu de suas entranhas, que foi preciso tapar a boca com a mão na tentativa de abafar o arroto. Impossível. No olhar mudo e no gesto silente, Sandro entendeu como desculpa, mas o brilho dos olhos de Cláudio o traíram. Aquela cena revoltava seu estômago. A gula do amigo ofendia o requinte do instante cálido em que estavam. Surpreendido ficou com a justa raiva notada nos sulcos da testa que surgiram. Sandro notara todo o incrédulo ato de nojo que Cláudio tentou esconder em vão.
- Ora! Não posso mais comer?
Gritou o seu sentimento ofendido. Cláudio quieto, não respondeu. Via na pergunta do amigo, irritação provocativa. Continuou a arrancar pequenos pedaços de grama. De viés olhou a raiva de Sandro.
- Bobo! - pensou.
Um sorriso sereno, de leve contraiu seus lábios finos. Não podia acreditar que Sandro estivesse realmente bronqueado com ele. Pensando em quebrar o gelo que entre eles se formara, pegou um punhado de grama e jogou no rosto de Sandro. Sandro ao ver a grama cair sobre sua cabeça, rilhou os dentes e praguejou:
- Filho da puta! - e ao mesmo tempo jogou o conteúdo do copo em Cláudio.
- Seu veado!
Depois dessa troca de amenidades, se engalfinharam num corpo a corpo. Primeiro Cláudio pulou em cima de Sandro não dando chance a ele de se safar. Rolaram esparramando tudo o que estava na toalha, copos, garrafas, comida, pizza. Num gesto brusco Sandro conseguiu empurrar o amigo que caiu batendo as costas. Ao pensar ligeiro, Cláudio com os pés na barriga do amigo lançou o corpo franzino longe. Novamente ele estava por cima, tentando esmurrar a cara de Sandro, que procurava aparar os golpes. Num dado momento, sem que conseguissem explicar, talvez por ter girado o corpo, Cláudio perdeu o equilíbrio e quando perceberam suas bocas de leve se tocaram.No mesmo instante, petrificados como se o olhar da Medusa os atingisse, ficaram. Minutos pequenos não se ouvia nem a respiração de nenhum dos dois. O olhar duro um no outro gelava as entranhas. Ao mesmo tempo fizeram uma careta de nojo.
-Argh! - fez Sandro.
-Argh! - retrucou Cláudio
E rapidamente se separaram. Um bem longe do outro. Sentiam a perturbação do inesperado a arder por dentro. Sandro conseguia ver a queimação lavrada num ardor intenso em seu rosto. Não decifrava o acontecido. E principalmente porque se revoltara ao sentir os lábios do outro tocando o seu. Fora um acidente. Cláudio tenso segurava os nervos que tremiam por baixo da pele. Sua raiva extravasava o limite da razão. Com a feição endurecida queria ver o amigo longe. Que a terra se abrisse e engolisse Sandro. E assim ficaram. Sentados. Sujos de comida e bebida e terra. Quietos. Só ouvindo o tempo correr no espaço. Aos poucos Sandro se permitia sorrir ao lembrar da cena. Cláudio ainda meio tenso, perguntou:
-Ta sorrindo do que, seu bobo?
-Da sua cara de macho ofendido.
-Vá encher o saco do outro. Vamos é arrumar as coisas.
- Ta certo, Sandro continuava rindo.
Cláudio por fim se rendeu. Se descontraiu e caiu na gargalhada. Guardaram o que restou da comida na cesta. E ao se encaminharem para o carro, Cláudio parou o amigo pondo a mão sobre o peito dele.
-O que foi? - perguntou Sandro.
-Há uma pequena folha de grama em seus cabelos. Espere que vou tirá-lo.
E com gesto proposital quase afetado, com delicadeza retirou a sujeira do cabelo do amigo.
-Vá à merda!
E quase numa retribuição, Sandro abre a porta do carro, fazendo uma saudação para o amigo entrar. Cláudio já estava dentro do carro quando gritou:
- Os peixes, os peixes, esquecemos dos peixes.
E saiu numa desabalada carreira, voltando logo em seguida exibindo o troféu. Subiram no carro e deixaram o bucólico recanto das descobertas onde ainda a meia-luz da tarde resplandecia ao fundo.
Pronto. Colocou o ponto final. Será que gostarão? Não sei. Também pouco me importa se gostem ou não. O importante é que eu gostei de escrever. Clicou no arquivo. Salvar. Fechou o word. Desligou o computador. Apagou a luz da sala e foi dormir.
Pastorelli

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

trivial

angélica t. almstadter

atestado de invalidez
beijos de vampiro
servidos com salada de ossos
finamente regados 
com um filete de sarcasmo
e pitadas de orgulho puro
bom - apetite!
eis a iguaria que deves louvar
não te faltará à mesa todos os dias!

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Cadê?






Com passos pequenos separando uma perna da outra em passadas férteis de sono, ele andava dentro da sua condição de humano apenas para constatar sua existência no mundo. Mas não se chateava, tendia às vezes para uma excêntrica depressão aos poucos eliminada no correr do dia.
Fazia frio. Enfiou as mãos nos bolsos da calça
Tiritava, não conseguia soltar os músculos que tensos fazia seu corpo tremer alucinado. Nunca gostou do frio. O vento gelado cortava sua pele adormecida feito gelo.
Com o dedo enluvado comprimiu o botão chamando o elevador. Droga! Chegara na hora do pico. Os elevadores vinham abarrotados. Às vezes era obrigado a esperar três, quatro ou cinco elevadores, e assim mesmo quando conseguia entrar.
Por incrível, naquele dia entrou no primeiro. Estava vazio! Não tinha ninguém! Apertou o botão. A porta fechou e ele encostou-se ao fundo. O elevador subia silencioso, lento, quase não se sentia seu movimento. Parava em todos os andares. E o gozado é que ninguém subia.
Ele estava completamente sozinho...
Foi sua constatação quando saiu para o corredor. Tudo vazio. Onde estava o pessoal? Normalmente essa era a hora intensa de um vai e vem de funcionários...Será que é Domingo? Não, não poderia ser! Será!?!? Ter-se enganado?! Continuou andando. No fim, virou à direita. Vazio!? Estranho! O que acontecia?
Não, só pode ser Domingo. Olhou o calendário. Não, não era Domingo. Era Quarta-feira, dia 20. Então onde estava o pessoal?
Indeciso parou um instante diante da porta. Quando estendeu a mão para girar o trinco, de supetão a porta foi aberta. Ele precisou recuar dois passos para trás. Quase cairá. E no susto, pego de surpresa, não conseguiu ver quem tinha saído.
Respirou. Abriu a porta e entrou.
A sala estava no maior silêncio. Para seu alívio não era Domingo, não. Estavam todos ali, sentados em suas mesas trabalhando. Todos de cabeça baixa sobre os papéis. Ninguém parece, notou a sua entrada.
Encaminhou-se para o seu lugar. Era dificultoso, pois as mesas estavam quase encostadas umas as outras. Havia um exíguo corredor entre elas, que mal dava para passar. E o seu lugar era quase perto do banheiro, logo depois da loira.
Ninguém notava sua presença, nem o pessoal que por qualquer coisa insignificante, gostavam de fazer piadas, tirar sarro. Estavam todos silenciosos, quietos, dava até nos nervos. Talvez estivessem de mau humor.
Com muito custo chegou ao seu lugar.
Parou... Surpreso o seu lugar estava vazio, sem a mesa. Olhou para os lados pronto a reclamar. Ninguém parecia nem vê-lo, mesmo assim perguntou:
- Cadê a minha mesa?
Silêncio. Não ouviu resposta.
Perguntou mais uma vez:
- Cadê minha mesa?
Novamente o silêncio.
Virou para a loira tocando seu braço.
- Onde está a minha mesa?
A loira nem se mexeu, continuou carimbando os papéis. Dirigiu-se ao rapaz.
- E você! Pode me dizer alguma coisa a respeito?
O rapaz olhou para ele com um olhar perdido na distância além dele. Seguiu o olhar do rapaz e viu o gerente fazendo sinal. Será que é comigo? Pensou. Foi até o chefe. Talvez ele tenha alguma explicação para dar, quem sabe?
- Pois não... Cadê minha mesa?
O chefe olhou para ele com um olhar duro
- O que o senhor faz aqui?
- Ora! Que pergunta, chefe! Vim trabalhar. Hoje não é Quarta-feira? Então, vim trabalhar...
- Acontece que vou lhe fazer uma confissão, meu rapaz.
- Que confissão, chefe?
- Desde ontem o senhor não trabalha mais aqui, o senhor foi despedido.
- O que?
- Não te comunicaram? O senhor foi demitido, mandado embora, rua...
Diante da mudez dele continuou
- Vá embora que esta atrapalhando os que querem trabalhar.
Deu as costas para ele e entrou na sala deixando-o no meio da seção. Com passos pequenos separando uma perna da outra andou dentro da sua estupefata mediocridade, saiu da sala.
Ninguém mais soube dele.
E creio que nem ele mesmo soube.

pastorelli

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

sua excelência: o eleitor


angélica t. almstadter
01/11/2010

sorriso franco, esperança na mão
subiu e desceu ruas
adentrou avenida assoviando


anônimo importante
só um número ou uma digital
e o sorriso ainda franco


clicou, pegou o bilhete e saiu
rumo a favela, ao gueto
não respondeu a provocação


na noite de sua alegria
o sorriso virou gargalhada
guardou a arma para outra ocasião

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

O que nós queremos!

Angélica T. Almstadter
O que esperamos nós brasileiros quando estamos diante da campanha para presidência do Brasil?
Esperamos ver os candidatos e pessoas próximas empenhadas em mostrar suas propostas para um Brasil cada vez melhor para todos os brasileiros, não só promessas; reais possibilidades de que possam ser passadas para o exercício prático.
Mas será que é isso mesmo que pensam todos?
Parece que esqueceram que os maiores interessados, nós brasileiros; povo, portanto a maioria, não quer saber se fulano é santinho ou se ciclano usa vermelho, verde ou amarelo, nós pensamos como um todo pensa: O Brasil que queremos viver, com escolas, educação, saúde, moradia, democracia e paz!

O palco da política nessa campanha virou tanque da lavadeira (que me desculpem as lavadeiras) para lavar todo tipo de roupa suja, inclusive a íntima, em público, enfiando goela abaixo do pobre eleitor falsas promessas, mentiras, boatos maldosos e muita fofoca. Um desrespeito total com quem assiste a esse patético jogo do poder.
A democracia é um jogo onde todos têm direito a livre expressão, que não quer dizer bagunça, nem que esse direito não deva ser exercido com responsabilidade, muito pelo contrário; quem tem o poder da palavra, o espaço para se manifestar tem que dar o exemplo e para ser respeitado tem que se dar o respeito.

Por mais que contestem vivemos num país livre, democrático e laico que tem mostrado sua cara no mundo. graças ao empenho do governo do Lula, porque se hoje o Brasil é um país soberano e respeitado lá fora, isso não aconteceu por acaso e nem da noite para o dia, mas pelo esforço do nosso presidente em fazer desse país um país melhor, menos desigual, que sabe o que quer e que luta para que o povo brasileiro entre no mundo moderno usando as mesmas mídias que as elites, com os mesmos direitos a educação, emprego, moradia e a participação ativa na sociedade, a mesma que antes era reservada só a escolhidos e bem nascidos.
As eleições presidenciais de 2010 vão entrar para a história, por muitos motivos, entre os quais pela volta do ódio, da busca do retrocesso calcado nas alianças mais espúrias com a extrema direita mais reacionária e retrógada. Uma eleição onde se pretendeu avivar a Inquisição, que foi a face mais vergonhosa da nação cristã. Ainda nessa eleição se pretendeu trazer para o centro das discussões, questões religiosas que não podem e não devem decidir questões eleitorais, destruindo com isso a possibilidade de uma discussão sadia e amplamente divulgada; a do aborto como questão de saúde pública e não do modo aparvalhado e covarde que foi. Um jogo ambicioso onde não se mediu as conseqüências de se atirar no adversário sem observar que na reta estava o próprio pé.
Há que levar em grande conta nessa eleição de 2010 a maciça participação das mídias independentes, a blogosfera e o twiter que contribuiram de maneira extraordinária para o envolvimento do eleitor, formando uma massa crítica que não se intimida. Com esse cenário de crescimento da participação popular na internet, já podemos afirmar com certeza de que estamos caminhando a passos largos para uma consciência política muito maior; não há meio mais democrático do que a mídia eletrônica, apesar da crueldade que também pode ser destilada por essa mesma mídia.

Vivemos num país onde quem detêm o poder da palavra escrita, radiofusão e televisiva são as grandes fortunas, que não estão acostumadas as serem confrontados, mas que nessa eleição, muito mais que em outras, tiveram que conviver com a mídia independente o tempo todo fazendo contraponto, filmando e mostrando a verdade. É preciso dar cada vez mais voz ao povo para que ele se manifeste livremente e também faça parte do processo democrático: "Todo poder emana do povo e em seu nome será exercido".
Essa pequena burguesia que se mantêm no poder da palavra escrita e falada não gosta de povo que pensa e está tendo que engolir a rebelião pensante levantada pela blogosfera. Já não mais se mostra como o grande poder de "informação" e sim como uma imprensa marrom, golpista que se desnuda a cada dia diante até dos eleitores mais simples.
Só seremos uma verdadeira democracia quando o povo conseguir participar do processo ativamente, consciente da sua participação, lendo e escrevendo ciente da sua responsabilidade e participação inequívoca sem que lhe seja tolhido o direito de livremente se manifestar e enxergar a verdadeira face do poder, formando uma consciência crítica.
Apesar de ser clara a manipulação de uma imprensa facciosa, ainda podemos tirar dessa eleição lições para nunca mais esquecer: Queremos uma país cada vez mais politizado, consciente e não vamos permitir que nos enfiem goela abaixo convicções pré-estabelecidas, mentiras e principalmente exclusão do povo no processo democrático.
Não podemos deixar que nos calem, somos a voz dessa nação e não é meia dúzia de pessoas que vai nos dizer o que fazer, ler ou pensar, muito menos impor os "seus modelos de liderança".
Queremos um pais de iguais direitos e deveres.
Queremos um país soberano e com as riquezas divididas com o povo e não com estrangeiros.
Queremos um BraSil para brasileiros cidadãos e não para aproveitadores de plantão!

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Tenho medo


Angélica T. Almstadter


Tenho medo de não ter medo,
E avançar o mundo das misérias,
Me perder na fila da fome,
E sem medo de desvendar segredos;
Ser condenada ao degredo,
Exilada na palavra,
Caminhar sobre brasas acesas,
Ser depósito de esperanças cegas;
A nadar de peito aberto, sem nunca espraiar


Tenho medo de ter medo,
E não denunciar a violência que campeia,
Pactuar com a demência que me rodeia,
Ser um verbo mudo;
Um folhetim barato, anônimo,
Sem nome e sem pseudônimo;
Me ver confundida na multidão calada;
Ginuflexa e mãos atadas
Olhando para o nada.

Tenho medo da omissão,
De não ser ponto de referência,
De perder a paciência,
De me ausentar da obrigação;
Fazer pouco caso da minha razão
Me alienar da verdade,
E prostrada na ansiedade
Perder minha identidad

terça-feira, 26 de outubro de 2010

As amigas.



Perguntava, usando uma expressão costumeira da sua mãe. O que fazia sua constante permanência nesse mundo sabe-se lá de meu Deus? Porque estava ali? Pensava sempre nisso. Não conseguia se es­quivar de perguntar. O pior era não ter resposta, isto é, procurava uma resposta lógica, uma lógica solução que fosse ao mesmo tempo uma resposta.

Intrigava-se por não encontrar nenhuma. Não se importava se a resposta fosse certa ou errada. Queria uma resposta. A mente fla­nava sobre um mundo de interesses que forçava pinçar palavras no sub­consciente. Procurava palavras agradáveis, excitan­tes, forçava-se a prestar atenção nas horríveis novelas. Se enredar na idiotice das tra­mas. Assistia a todos os programas de entrevistas. As ve­zes achava algumas interessantes, outras vezes se martirizava diante dos programas de auditório o domingo inteiro.

E tudo para que? Não pensar, não for­mular a integrante pergunta. Porém todas as tentativas resultavam in­frutíferas, sem êxito voltava a pensar. Não queria. Como se livrar do pensar? Ler um bom livro? Ouvir uma boa música? Horas a fio o rádio esbravejava sonoridade que não prestava atenção.

Faltava-lhe talvez o que a maioria das pessoas desfrutava. Os olhos azuis percor­rem de um móvel a outro reluzente. Cansados se fecharam. O que nada resolvia, pensou aflita. Nin­guém estava afim. Era sua culpa? Não claro. Suas in­tenções eram boas. Só não al­cançavam o objetivo. Seria o modo de agir? Estaria agindo incorreta­mente? Desfavorável talvez. Não seria de­feituoso ...

Virou o rosto. O cheiro de cigarro misturado com cerveja revi­rava seu estômago. Abriu as pernas. Prendeu a respiração. Fechou os pulmões e começou a contar: um...dois...três...quatro...bem lenta­mente... sorvendo o ar para dentro de si... cinco... seis... sete... oito... nove... dez... soltou quase vi­olenta­mente o ar empurrando o mal estar para o canto.

Na cadeira perto da janela, estava as roupas amarfanha­das, amontoadas num desleixo pro­posital. Despojadas do conteúdo que dá vida a elas. Tudo aquilo lhe mostrava a imóvel evidência da sua perma­nência dentro de um mundo doente. Sorriu. Parecia letra de mú­sica.

Num mundo doente sentia ela desconfortável. O peso masculino machu­cava suas costas. Estava can­sada daquela posição submissa a qual, não podia agir, expulsar o mal entumecido entre suas pernas. Aceitara aquilo sim. Havia momentos que desejava, e por mais que se lavasse, se perfu­masse, o cheiro implacá­vel de cerveja, café, cigarro, suor azedo, imundo, nojento, permaneceria muito tempo na pele, nos pe­los, na carne, até nos ossos per­maneceria pelo resto da vida.

Seria, se­ria não, era sua marca, estava ir­remediavelmente marcada. Confes­sava constrangida que as vezes de­sejava o asqueroso universo mascu­lino dentro dela, penetrando-a len­tamente. O que a mortificava era que dificilmente encontraria alguém que não agisse mecanicamente. Eram to­dos despojados de amor, de desejo, de carinho..

Suspirou. Problemas. Sentimentos. Dúvidas. Mesmo a dor não a revoltava mais. Passava a aceitar tudo que lhe cabia aceitar como demonstração de força. Olhou para dentro de si e tomou consci­ência de que o sujeito demorava. Via a bunda branca e peluda refletida no espelho do teto.

Ele pensa o que é? Tinha de atender outros clientes. Não podia ficar de per­nas aberta só para ele! Começou a se irritar com a pele áspera, a língua nojenta em seu corpo. Se fingisse que se excitava? Suavemente come­çou a passar a ponta das unhas nas costas peludas e suadas, então, o viscoso e quente jorro inundou escor­rendo por suas coxas. Estremeceu livre do peso. Pronto desgraçado está satisfeito?

Ah! um dia, sonhava, um dia livre da submissão estaria longe dali. Estaria longe. Ao se levan­tar jurou nunca mais amar. Via ur­gência de sair dessa vida. Por en­quanto aquentava.

Friamente recebeu o dinheiro que o homem lhe dava. Quando a porta se fechou as suas costas, se jogou na cama chei­rando esperma e suor azedo, maldizendo a vida, odiando seu destino. Odi­ando tudo o que rodeava seu mísero mundo. A campainha da porta to­cou.

Foi abrir. Droga! não se pode ficar um minuto sossegada. Jogou o roupão vermelho sobre o corpo. Qual não foi sua surpresa ao vê-la novamente. Meu Deus, não pode ser!? Ela não tinha viajado? Se mu­dado? O que ela queira?

Aproveitando o susto da amiga, empurrou a porta e sem esperar pelo convite entrou e se aco­modou no sofá maltra­tado. O que foi? Não fique aí parada como se visse um fantasma. Vamos conversar. O que? Conversar? O que? Queria conversar!? Que atre­vimento invadindo assim minha privacidade!

Os nervos doíam por baixo da pele. Saudades? Estava com saudades? Como pode ser hipócrita, meu Deus. Dizia sempre: Um dia vou na sua casa, e nunca foi. Agora repentinamente quem ela vê ao abrir a porta? A amiga. Vou na sua casa, se de fato quisesse talvez o relacionamento delas não teria che­gado ao fim como chegou. Mas não. Nunca foi a sua casa, e hoje, depois de....quanto tempo?....três ou quatro anos aparece sem avisar. Quer dizer, resolve aparecer, depois de tudo. Suspirou olhando o telefone que permanecia mudo. Deve ter recados na secretária, pensou aflita. Não ousava verifi­car enquanto a amiga estava ali.

Notou quando voltava do ba­nheiro um copo na mão dela. Desculpe, disse, tomei a liberdade de me servir. Seus lábios sorriram um sorriso leve e entreaberto deixando apa­recer os dentes brancos, sorriso que a fascinava. Parecia a dona do ambiente. Se aproximou no intuito de tirar o copo da mão dela. Mas sem saber porque recuou como se dissesse não ser oportuno.

Não estava com medo dela. Não tinha medo de ninguém. Durante todo o tempo ela fa­lava, falava sem tomar fôlego. Em pé no meio do quarto, parecendo aqueles bonecos ridículos que se dá corda e não para enquanto a corda não termina. Falava em voltar a ser amigas novamente, em compreen­são, em amor, que a amava ainda, traição, amizade... Espere, gritou enfurecida, não fale em amizade. Porque? espantada perguntou ao co­locar o copo vazio em cima da mesinha.

Agora eu é que vou lavar... De­certo se julga uma grande amiga, não é? Esperou. Como ela permanecia calada, continuou. Deixe refrescar sua cabecinha de vento. Quem desesperada pediu a você um mísero empréstimo? Quantia pequena. Du­zentos reais. O que aconteceu? Você recusou, lembra-se, me disse: Oh! querida, e me abraçou, no momento não tenho, mas se quiser te dou um quadro meu para você rifar.

Até po­deria ter aceito, mas eu queria o dinheiro na hora. Iria e realmente fui despejada e você nem se dignou a se preocupar. Sentiu amargura. Sen­tiu ódio. Revolta. Jurou naquele mo­mento nunca mais vê-la.

A partir daquele dia, fez de tudo para se des­vencilhar da amiga. Ia aos encontros sempre acompanhada. Recusava bebidas alcóolicas. Sabia que embria­gada perdia as forças e se entregava aos caprichos dela. Não, chega, já fazia mais de dois anos que não se viam.

E hoje ali, diante dos seus olhos estava ela resmungando hipocri­sias. Abrindo feridas que julgava curadas. O tempo corria no barulho dos carros lá embaixo. Ah! o tempo definitivamente corria em todos os lugares. No olhar penetrante das duas, no silêncio das vozes cansadas. Pensar no tempo dá um terrível frio por dentro.

Que tola, em tudo corria o tempo, até no sorriso do galã pendurado na parede. Tempo ingrato que nunca ofereceu oportunidade alguma, que nunca mostrou o caminho que deveria percorrer. Tempo que não leva essa ingrata daqui, que não percebe o fim de tudo. Quase gritou: Acabou. Vá embora. Gritava todos os poros do seu corpo. Vá embora, gritou por fim com raiva.

E ela devagar sem demonstrar pressa e quase que numa atitude indecisa, pegou a bolsa e saiu batendo a porta. Ufa! pensei que não fosse embora. Mulher desgastante! disse ao mundo. Ao mundo dos desagradáveis afazeres. Tudo é como a gente não quer, resmungou tirando o roupão e nua sentou na cama e acendeu o cigarro e ligou o rádio e deixou o tempo passar pela sua vida que estava existindo sem que realmente vivesse.

pastorelli

terça-feira, 19 de outubro de 2010

A viagem de volta.


Lentamente o ônibus ia vencendo a estrada tortuosa da serra. Sua lentidão devia-se não só ao transito, mas fluente, e a estrada quase íngreme e tortuosa revelando a cada curva uma atenção acurada. Com mão firme Jose sentia toda a trepidação do asfalto rachado precisando de vários consertos, o que aumentava sua responsabilidade. Na rodoviária, na sala destinada aos funcionários, José descansara por umas duas horas como se tivesse dormindo o dia inteiro. Por necessitar de dinheiro, estava substituindo o amigo ao invés de ter ido para casa. Ganhando pouco, quando podia fazia algumas horas extras, o que por lei era proibido na profissão dele, e nem mesmo o chefe sabia e, se sabia fazia vista grossa, pois o que ele queria era ver os ônibus rodando, pouco se importando com as necessidades de seus funcionários. Trabalhando quase dez anos, sem que houvesse mancha nenhuma em sua ficha, achava poder agüentar algumas horas sem dormir e, que duas ou três horas lhe eram suficiente para recuperar as forças. Num gesto inconsciente levou a mão à testa querendo eliminar uma pequena pontada que começava a irritar. Estava entrando no primeiro túnel. Não saberia dizer, quando lhe perguntaram depois, se fora a luz amarela do túnel que ofuscou a vista ou se a dor obrigando-o a soltar da direção. O que ele sabe é que sua vista ficou embaçada fazendo com que perdesse o controle do ônibus que, saindo da faixa avançou a outra na contra mão. O ônibus deu uma guinada para a esquerda voltando rapidamente para direita assustadoramente. No instante em que ele avançava contra mão, surgiu um carro a toda velocidade obrigando o motorista a pisar no freio. A freada juntamente com os pneus traseiros cantando no asfalto ecoou reverberando no túnel num horrível som de acidente. Porém, num raciocínio instantâneo, José puxou o ônibus para sua faixa e segurou firme a direção.


pastorelli.



segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Antologia 2010














É com orgulho que digo a voces da nossa Antologia 2010,
além da capa que foi concepção minha a partir de uma foto cedida por minha filha: Jussara Almstadter.
ainda há um prefácio delicioso de Uraniano e as poesias de amigos que sabia da qualidade, mas me surpreenderam mais ainda ao ver publicado.
Eu apanhei na mão minha cria, cheirei, acarinhei e me senti orgulhosa de mais uma vez participar de uma Antologia nascida de um grupo virtual, pq eu vi empenho, dedicação, doação, amizade, companheirismo e acima de tudo par-ce-ria!
Obrigada Conceição, Tânia e Clóvis pelo empenho em nos ajudar a realizar esse sonho de dar luz à nossa cria literária.
Sou suspeita pra falar, pq faço parte desse seleto grupo, mas sinto uma ponta de orgulho de estar no meio de gente tão gente!
Obrigada pela amizade, pela companhia e por me incluir nessa jornada.


beijos
Kika

A velha senhora.


Ela estava onde sempre esteve.

Quieta alheia a tudo o que ao redor se passava. Cabeça abaixada, o queixo encostado ao peito, o corpo encurvado, o olhar perdido em vagos pensamentos rememorando o tempo e o espaço com fatos que se fixaram na memória do enfraquecido corpo e nas enrugadas mãos que se mexiam num laborioso trabalho imaginário dobrando e desdobrando a barra do vestido.
Sua mente deslizava no escuro, numa suavidade em uma nesga que pouco se importando com o que ocorria ao seu lado.

De vez em quando alguém ao passar por ela puxava o vestido interrompendo o que fazia. Girando com dificuldade a cabeça olhava a pessoa como se fosse dar bronca ou falar e, conforme a ocasião, como se procurasse por alguém.

Tinha medo de ficar sozinha.

Fosse esquecida a espera da morte. Da morte propriamente não tinha medo. O que a apavorava era ficar sozinha, morrer só, sem ter quem segurasse sua mão.

Não distinguia as vozes, gostava de ouvi-las ressoando pela casa barulhenta. O sobe e desce a escada de madeira. O liga e desliga a televisão. As vozes eram um amalgama de sons, sem distinguir de quem era ou de onde vinham, assim passava a vida.

Mas um dia, entretidos com seus problemas não viram que com dificuldades ela se apoiou no braço da poltrona e lentamente ficou de pé. Olhou para os lados. Só a neta de cabelos encaracolados olhava para ela. Todos continuavam conversando não viram ela se levantar.

Seguida pela menina atravessou a sala, passou no meio de todos, abriu a porta, sorriu e jogou um beijo para a neta e foi embora.

Pastorelli

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

SEDEX

SEDEX



Rosa Pena





Segue nessa remessa um pedaço do céu, pode ser o da minha boca, um braço do mar, os meus seguem os dois, uma margarida que acabei de colher, florescida em meu sexo ainda úmido de sonhar contigo, o vento que bateu no meu rosto tentando me acordar, bem difícil sem os seus beijos, meu cheiro de fruta madura, da vez, pois sei você é meu freguês, minha alma analfabeta que só sabe duas vogais, ai, minha respiração ofegante, um bocado do verde que é meu alimento, burra, total falta de bom senso viajar sem você e pra disfarçar perante o correio minha foto sorrindo. Aqui não é lindo, pois a luz é indireta.



Ela nasce no seu olhar que não chega até cá.





livro UI!

domingo, 3 de outubro de 2010

A paz mundial é importante.

.
A sua fama de indeciso era sumariamente conhecida.
Todos que a ele, por uma razão ou outra tinham afinidades, achavam, princi­palmente a noiva, uma fra­queza, enquanto outros, inclusive Arenice, achavam que ele usava o poder de inde­cisão como arma reflexiva. Mas o que todos não sabiam, é que ele se conhecia muito bem para negar e avaliar a opinião que dele faziam. E isso o deixava diante de um impasse difí­cil, como agir? Sua conduta dizia que deveria simplesmente vi­ver como vivia, apenas viver. Ao ouvir as vozes da sala como flechas incandescentes, sen­tia-se empurrado a desprezar o desânimo e avançar ou­tro passo ao desconhecido. Pensou em retroceder. Era tarde, o sentimento a flor da pele incitava-o a iniciar os pas­sos rumo a liberdade, em avançar, mesmo que a indecisão o impedisse. Paralelo a raiva crescia incontrolável ungindo num só ato os dois sentimentos paralisando sua atitude. Estava próximo a continuar e se perguntava, deveria? Claro que sim, respondeu seu ânimo fraco procu­rando disfarçar a timidez. Ao chegar iniciara um gesto que suspenso, in­terrompeu o movimento, os dedos esticados a poucos milímetros da maçaneta da porta, projetava o próprio ato incitando-o a continuar. Deveria continuar? Por que? Para que? Possuía a noção, pequena mas possuía a noção da neces­sidade de que deveria continuar, fazer algo, permanecer a espera dos acontecimentos não era digno, deveria e tentava dar continuidade ao movimento iniciado por seus pais. É verdade, se indeciso se encontrava prestes a entrar na sala, fazer parte da balbúrdia, tendo somente a porta entre ele e a sala, ouvindo as risadas grotes­cas, fúteis, aflorando sua incapacidade como prova, fa­zendo parte da sala, do ambiente da sala, é que em seu rosto quase retangular, de olhos claros, cabelo loiro, lábios grossos, aflorava uma feição grave evidenciando a indeci­são. Parado em frente a porta do atelier decidiu entrar, não podia mais voltar, girou a maçaneta e empurrou a porta.

Espantoso como reconheço minha incapacidade e nada faço para dissipá-la, dizia mentalmente. Mesmo assim, com esse reconhecimento parecia-lhe terrível ex­pressado em pala­vras. E, também era uma demonstração de revolta, o que lhe parecia mais justo, revolta contra si mesmo. Continuava depois de todos esses anos a freqüentar o atelier. Dizia que era para ter al­guma coisa a fazer, para espicaçar a motivação ador­mecida, para alimentar o concreto sentir que ainda existia nele dizendo sempre: Preciso fazer alguma coisa, lutar, sair dessa modorra. Vontade mesmo não tinha, era lhe indife­rente o que estivesse fazendo e a arte era uma delas. Achava des­cartável, gostava de dizer que a arte nunca fora sua paixão, o máximo que podia admitir é que era bonita, sim­ples enfeite para cabeças ocas pendurarem na parede de suas casas. Não acreditava que um quadro refletisse uma questão social, política ou pessoal. Era en­feite e pronto, não se dis­cutia mais. Freqüentava o atelier era para preencher o tempo ocioso, o vazio. Não sonhava ser um artista plástico. Enfrentava a pin­tura por considerá-la de todas as ex­pressões artística a mais versátil de se produzir, por ser o que admitia: Enfeite. Todos esses cinco anos mantendo a rotina monótona, des­cobrira o quanto difícil é expressar no linho branco da tela as formas de incertezas, de emoções, de sentimentos que o profes­sor paciente o incitava a pintar. De tentativa em tentativa, compreendia que nestes cinco anos não aprendera nada. E numa voz mecânica sem emoção, porém consciente filoso­fava: Tenho muito a aprender ainda. As vezes julgava melhor desistir, como agora, inde­ciso em frente a porta. Mas picado por um al­finetada imbuída na voz calma e paciente do pro­fessor, mostrando a ele as formas de energia e a convicção da arte com que ele, pro­fessor neces­sitava e como conseguira a enorme bagagem para dela viver, e dando-lhe junto com o irmão tam­bém artista plástico, a oportunidade de concretizarem o sonho de montar um atelier, esse atelier, o Atelier In­gres, sendo hoje quase que amplamente co­nhecido e que vinha cumprindo o proposto desde o início de suas atividades, mostrava tanto a ele como para todos que o freqüen­tava, que a arte é e sempre será útil, prazerosa e necessária, não só para o professor como para quem dela souber conhecê-la. Ele sabia até muito bem a história do atelier e as dificuldades, as lutas e o sa­crifício para conse­guir manter o pequeno aconchegante ambiente funcionando e dando prazer. Num tom de brincadeira costumava dizer que a culpa dele estar ali era da Arenice.

Antes eles estudavam na Escola de Desenho e Pintura de Belas Artes da Ci­dade, como era conhecida, e por desinteresse do dono, também artista plástico e profes­sor, foi fechada, deixando tanto ele como Arenice e os outros alunos sem onde estuda­rem. Foi quando indeciso, decidiu desistir, contudo Arenice o convenceu a não parar. E conversando, ela mencionou a exis­tência do Atelier Ingres, a qual sua amiga, médica onde ela trabalhava freqüentava. E propôs que fossem lá.

Hoje não consegue explicar ou definir, porque passiva­mente aceitara fre­qüentar o atelier, não que o ambiente reinante nas aulas noturnas fi­zessem com que achasse inútil sua pre­sença diante do cavalete. A princípio tomado pela timidez junto com o acanhamento, se refugiara num mutismo egocêntrico. Admitia, passados cinco anos tivera pouco progresso, e esse progresso pouco lento não vinha das aulas, ou do atelier, e muito menos do professor que se esforçava em ensiná-lo. Essa len­tidão vinha dele, era sua particularidade que exposta por estar ali se desco­brindo. Era um afeto psí­quico do seu íntimo revelado nas freqüências que tinha ao atelier. Parado em frente à porta indeciso, sentia a inibição crescer prendendo os movimentos. A noção do que fazia ou que acontecia naqueles momentos em frente a porta, se perdia na bruma do esqueci­mento. Parado perguntava angustiado, devo ou não entrar, e num milésimo de se­gundo sem que tomasse uma resolução se via dentro da sala cumprimentando o pessoal. No final da aula saía grato, com ânimo renovado, confiante, para na semana seguinte começar tudo de novo. Possuía a opinião que deveria se empenhar mais, se atrever com mais ousadia, ir além do que se propu­sera, e, no entanto a fraqueza turvava os movimen­tos. A razão surgindo de repente dava-lhe vazão criando um branco, deixando-o em frente da tela sem saber o que fazer. Ao seu lado a amiga pin­tava num método sin­gular todo seu. Gostava do que ela fazia. Era a única que com suas formas criativas ou­sava dentro do marasmo reinante. Formas eróticas, sensuais que surgiam provo­cando um questiona­mento que chegava a chocar. Suas figuras sensuais se evidenciavam na beleza dos corpos nus, na distorção premeditada dos modelos revelando um toque cria­tivo e imaginoso.

A questão era: possuía imaginação criativa? Podia ela proporcionar-lhe con­tinuidade? Melancólico voltou à atenção à tela. Refez um traço torto na figura principal. É arte o que faço? As formas alongadas, disformes, distorcidas arredondadas, como conse­guira criar essas monstruosi­dades? Se gostavam por que recusar, por que não fazer! Cri­ado numa adolescência onde a cultura sendo estreita, o que ressaltava era a sobrevivên­cia isolando a ambição. Tivera a liberdade tolhida pelo medo das conseqüências for­mando uma crosta de acanhamento tímido egocêntrico e egoísta. Tomou conhecimento de possuir liberdade muito tempo depois. Quando a ingênua falsidade do noi­vado procurava esquecer aqueles momentos, rompeu o casulo que o envolvia. Rompimento dolo­roso em conseqüência da despretensão cega da noiva. Ela sem notar o que ocorria deu-lhe a li­berdade que precisava. Possuía criatividade, vendia até razoavelmente bem os quadros. Viver é sentir a si próprio. As pulsões vigorosas fluíam regadas de certa intimidade não como alimento, o que ele achava certo, mas como energia envol­vendo-o camada por camada resti­tuindo o sentir que lhe parecia restituído. Era carre­gado a estar ali dia a dia, no atelier, em frente ao cavalete, criando aquele imenso qua­dro, junto com todos, junto com a amiga, sentindo-se pre­sente como parte do todo do todo, tendo a mansa sensação de ser recompensado. Chegou de­sori­entado, arremes­sado contra o muro de falatórios, contra as grades de risadas e aos sussurros abafados, aos poucos eliminados, deixando-se ouvir abertamente, questionando opiniões no desu­mano sentir alucinado. Trazia nos gestos, nas atitudes, no modo de olhar tímido, a calma, uma espécie de alegria, uma pequena exaltação que se misturava com a apática liber­dade conseguida. Observava a amiga entretida criando formas rosadas de anjinhos desnu­dos. Descobria enfático que nada daria a ela, e por que não aos outros também? por mais que explicasse, a noção do que se passava. Algo se transformava e ninguém percebia. Aproximava-se do ponto exato, talvez a certeza de alcançar o objetivo.

Ela riscava a toalha xadrez da mesa acompanhando a música. Tomava o terceiro café. Não saberia de antemão, ter o desprazer de alimentar um certo arrependimento. Seria egocên­trico. E além do mais estava sendo injusta consigo própria. Não suporto injustiça e de mais a mais, concordara, fora conivente com a situação. E Cláudio? Não quero pensar nele, não agora nesse instante. Não merece. Talvez mais tarde seria oportuno, mas não agora. Não se sabe o que provo­cará ele. Uma reação absurda, grotesca de quem não sabe o que faz. Faltava-lhe competência ordi­nária para enfrentar fatos cruciais. Um idiota é o que ele é. A situação é delicada. Aliás, tudo é delicado. As pessoas não sabem que é preciso pouco para se viver. Em pequenos goles espaçados saboreava o café. Como agiria ele? Eu é que vou saber? Não o conheço. Isso é problema dele. Que se vire da maneira que achar melhor. Só peço que não atrapalhe meu fazer. Sorriu resignada. Confiante sentiu-se levada por movimentos acelerados. Desejou sair dali, ir embora. Queria mesmo? Acendeu o cigarro. Quantos cigarros já fumara? Que importa. Por baixo da pele triguenha os ner­vos se agitavam doendo sua carne. O coração começava alardear a chama selvagem petrificando-a na cadeira. Que fazer? Súbito o olhar descompassado acompanhou o retângulo da porta que se abriu de leve. Sentiu o suave movimento advertindo o coração ao vê-la. Sinto-me amena e nada pa­recerá existir além de mim. Além dela. Respirou cadenciada novamente ao ver os olhos castanhos de quem sabe o quer procurando. Acenou. E instantes mais tarde, Silvana estava sentada a sua frente. Foi então que compreendeu a total imensidão dos movimentos e não se revoltou diante da abrupta ação da amiga. Sorrindo chamou o garçom e sem dar chance à amiga, fez o pedido. Ao ficarem sozinhas fixou sua atenção na voz maviosa da amiga. Ouvia. Era a qualidade animalesca da sua pessoa, da sua maneira de ser. Falar era para os outros. O que a incomodava. Cláudio in­significante como era, não a compreendia. Seu mutismo era revoltante. Ao conhecer Silvana viu a possibilidade de se tornar outra. Mais envolvente com as coisas, com o mundo. Talvez falante ou tornar-se mais ela mesma. Conheciam-se há um ano. A princípio o medo se apossara da frágil ati­tude que exprimira. Nascida e criada na burguesia normal desconhecia o sentir. Arrogante acredi­tava ser possuidora da vida. Ao ficar noiva, em Cláudio tinha a justa sensação de se apoiar num pilar que seria a base da construção. Passados todos esses anos, verificou que o pilar continuava no mesmo lugar. Revoltara-se, não com ele, mas consigo mesma. Um chato, um idiota. Fora burra não ter percebido a mais tempo.

É preciso ter medo... do que? De viver, por exemplo, de sentir as coisas, as pulsões do cosmo, do que se vê principalmente. É. Não ter medo. Não tenho medo. A princípio quando sou­bera a força de não sentir fora grande que ele teve febre intermitente por vários dias. Hoje não. Riu feliz. Ficar com medo do próprio medo! E via. Estava vendo. Já um tempão que estava vendo. Não era visto. Da posição em que se encontrava era impossível ser visto. No entanto, crueldade, quem pode explicar! Desejou ser visto. Queria até. O que não poderia acontecer. Entretidas o mundo só inte­ressava a elas e pouco se importavam o que pudesse estar acontecendo no mundo. Foi o que com­preendeu. Tinham combinado de se encontrarem, e lá estava Isa, não gostava de ser chamada de Isa, Lisandra, e lá estava Lisandra sorrindo no pequeno mundinho. Como demorava se pôs a andar de um lado para o outro, e numa virada para retornar ao ponto de partida, é que vira as duas. Parou. Como acreditar nela depois disso? O pior era ser chamado de idiota, vulgar, sem nunca ter sido. Pelo menos pensava não ser. E suas atitudes? Meramente atitudes que não podiam dar cre­dito. Movidas por impulso de solicitude. Compreendera? Não, não compreendera. Nisso, numa instantânea imagem de colagem, pensou em Arenice. Tumultuado continuava pregado ali. Queria ao mesmo tempo não queria. Docemente como se sentisse o sabor suave de uma fruta, foi sentindo o pequeno sabor de não ser pertinente àquela cena. Duas lágrimas escorreram. A paz mundial é mais im­portante, pensou. Foi o que percebeu, sentiu e no mesmo instante elas olharam para ele e compre­enderam também. A paz mundial é mais importante. Cláudio sorriu não amargurado, mas triste pela tardia descoberta. Enfiou as mãos nos bolsos da calça jeans e começou a andar como se nada houvera acontecido. Elas notaram sua decisão. Lisandra fez menção de querer se levantar, mas foi segurada pela mão de Silvana. Deixou-se cair novamente na cadeira compreendendo o que perce­bera a amiga. Cláudio atravessou a rua pouco se importando com o tráfego.

- Será que encontrarei Arenice em seu apartamento?

pastorelli

sábado, 2 de outubro de 2010

Ato de fato

Angélica T. Almstadter


Deixo a besta fome se perder no juízo parvo dos passantes, afinal nem ela mesma se sabe atriz principal nessa calçada da fama. Adorno os olhares esgazeados com poesias lúgubres intercaladas de risos frouxos e muitas pérolas ditas sem censura.
Quem há de se perder nessa guerra de retórica famigerada? Um vulgo espírito de face encavada e falsos passos, que permanece hilário para o consumo da inerme massa estupidamente passiva. Mas não é só de horrores que se vive nessa selva de cascalhos bem cuidados há o mel que pinga da boa seiva, rara, mas de fonte certa.
É pouco ou nada seguro nesse feixe de ilusões banais a estranha convivência in natura, é um quase anunciado suicídio público. Na valia dos grandes feitos, da luxúria revelada quase em volúpia ficam vincados no mural da publicidade gratuita a personalidade magnânima da existência humana.
Seixos que somos nessa correnteza inóspita de leito para as gerações vindouras deixamos rastros seguros para quem há de pisar o mesmo chão depois de nós e deixamos comportas abertas para que escorram a vaidade, o orgulho e até as nossas pequenas crueldades. Semeamos nessa passagem quase obscura um canteiro de flores particularmente artificiais que colherão tanto a ralé admirada quanto a prole desencantada.
Que venham então os dias negros sob o estrondo da euforia teatral a musicar a passagem ostensiva da miséria fantasiada de turba elegante para o aplauso disciplinada da seleta frisa que observa sequiosa.
No camarim o debrum da roupa desgastada é cosido com esmero para o próximo ato.

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

A espera.

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Com gestos miúdos e contidos fechou as gavetas uma por uma. Jogou as chaves na bolsa de couro aberta em cima da mesa.
Quinze minutos faltavam ainda para cinco e meia. Mesmo assim resoluta se encaminhou para o elevador. Na recepção desejou um bom fim de semana à recepcionista.
Ao sair para a rua sentiu o impacto do vento cortando seu rosto moreno. Enfiou as mãos no grosso casaco como se tal gesto fosse protegê-la do frio. Época boa para caminhar costumava dizer.
Parou no pipoqueiro comprou seu saquinho habitual. No semáforo atravessou a rua. Um quarteirão depois, à esquerda, desceu o declive pela trilha que cortava o canteiro onde a placa fincada bem no meio do verde dizia em letras quase apagadas: não pise na grama, deixando a marca dos pés sobre os muitos pés de transeuntes apressados.
O ponto do ônibus como sempre era um imenso formigueiro. Parou afastada da massa aglomerada à beira da calçada olhou o relógio. Dali a pouco o noivo viria apanhá-la.
Como sua vida podia ser de uma futilidade de nada lhe acontecer a não ser o corriqueiro foi o que perguntou a si mesma observando a afobação das pessoas em querer tomar a condução, via uma ânsia de se ter alguma coisa para se fazer, de se ter um compromisso que provavelmente, preencheria a vida de cada um.
Indignava-se com aquela afobação. Um empurra sem fim que só demonstrava ignorância bestial contra o semelhante. Todos de uma maneira ou de outra chagariam em casa, por que precisavam ir todos ao mesmo tempo?
Mudou o pé de apoio. Cruzou os braços. Do peito saiu um suspiro curto, cansado. Droga de vida! Por que ele demorava?
Nisso sem saber, começou a sentir um pequeno formigamento do lado esquerdo ao mesmo tempo a temperatura do corpo subiu. Não agüentava o calor. Apesar do frio tirou o casaco. Pôs se a andar de um lado para o outro na esperança de que a sensação esquisita desaparecesse.
Angustiada perdia o controle dos movimentos. Horrorizada suas mãos subiam e desciam acariciando seu corpo. Dos lábios saiam gemidos lascivos. Tinha noção do que se passava, não conseguia deter as mãos, nem a voz.
Nisso a senhora ao lado que a olhava de soslaio, se afastou quando resolveu tirar a blusa ficando de sutiã. Nessa altura todos olhavam para ela que se contorcia desesperada.
Fizeram um círculo a sua volta. Assobiavam e gritavam palavras obscenas. Um coro de voz se sobrepôs num uníssono em tira, tira, tira. Obedecendo ficou só de calcinha. A senhora que havia se afastado gritou: Chamem um guarda! A cena parecia saído de um filme B.
O guarda nos seus noventa quilos apareceu empurrando e pedindo licença. Seus olhos se arregalaram ao ver ela se acariciando como se estivesse num palco fazendo strip-tease. Estava diante de uma situação inusitada. Estupefato não sabia o que fazer. Precisava agir. Deu dois passos à frente e esticou a mão. A ponta dos dedos tocou a pele morena quando se ouviu um buzinar insistente fazendo com que ela desse um pulo de susto.
O noivo a esperava com a porta do carro aberta.
Pastorelli