quarta-feira, 29 de dezembro de 2010
segunda-feira, 20 de dezembro de 2010
domingo, 19 de dezembro de 2010
Feliz Natal
O Natal é vermelho
Rosa Pena
A mãe já estava entrando na terceira idade e começava a sentir aquela pontinha de desânimo, aquele tanto faz como tanto fez, entre eles... armar a árvore de Natal, fazer ceia.
E pensar que ela sempre fez uma questão danada de muitos enfeites, do presépio, da guirlanda na porta, de um peru maravilhoso. Foram festas lindas, fantásticas. E pensar, e pensar, e pensar! Pronto: Agora nada de pensar, muito menos navegar na nostalgia. Saudade vá procurar outro coração, pois esse não lhe pertence. Replay de Natal fica por conta do Rei RC que só varia a roupa de branco para azul ou de azul para branco. Inovar é a palavra de ordem.
O marido sempre acompanhou suas resoluções. Dos sete filhos agora só dois moravam com eles naquela casa linda e imensa. Empregados nessa época folgam. O trabalho e o silêncio dobram.
O temporão insistiu tanto na confecção da árvore que ela acabou por enfeitar displicentemente a antiga num cantinho qualquer da casa.
Como cada um dos outros filhos passaria num lugar diferente, sugeriu impondo aos quatro que fossem cear num quiosque em frente à tão badalada árvore da Lagoa. Dois toparam, mas levou um susto quando o caçulinha disse:
—Cear fora de casa? Logo na data em que as árvores armadas em casa ficam mais bonitas... O menino não nasce mais?
Foi ao supermercado comprou um tender cheia de love e muitas cerejas. O Natal é pintado de vermelho, é vida, não é luto.
Mas o Rei vai estar de azul e cheio de flores. São tantas emoções que a gente vive por mais que tenhamos quase certeza que elas se esgotaram com o tempo.
*livro: TARJA BRANCA (2010)
sábado, 18 de dezembro de 2010
O papagaio.

O campinho como era chamado o terreno baldio que ficava atrás da casa àquela hora estava vazio. O que lhe proporcionou uma alegria safada.
Queria testar primeiramente antes de mostrar aos amigos o papagaio que fizera com ajuda do pai na noite anterior.
Olhando para os lados viu que o dia estava excelente. O vento soprava docemente o que prometia boa diversão. Paciente esticou a linha e sem muita dificuldade conseguiu colocar o papagaio no ar.
A linha quase totalmente estirada produzia na sua mão vibrações pequena que ao seu comando o papagaio subia, descia e com pequenos toques na linha fazia com que ele embicasse ora para a esquerda, ora para a direita.
Já previa a estupefação dos amigos, as exclamações de admiração. Veriam que agora eles tinham um competidor à altura, sorriu satisfeito.
Nisso ao dar um puxão um pouco mais violento, a linha perdeu a força. O pipa estava caindo. Largou a lata de linha e saiu correndo. O campinho não era grande, mas o vento para desespero do garoto arrastou o pipa para o outro lado da rua.
Estava quase perto do pipa caído no asfalto quando viu surgir o carro vindo pelo lado esquerdo. Aflito ele acelerou as pernas e gritando e gesticulando os braços procurou chamar a atenção do motorista.
Porém o veículo aumentou a velocidade não dando oportunidade para que ele chegasse a tempo para salvar o papagaio. Com os olhos fixos cheios de lágrimas pegou os destroços do chão e com passos lentos entrou em casa.
Pastorelli
Queria testar primeiramente antes de mostrar aos amigos o papagaio que fizera com ajuda do pai na noite anterior.
Olhando para os lados viu que o dia estava excelente. O vento soprava docemente o que prometia boa diversão. Paciente esticou a linha e sem muita dificuldade conseguiu colocar o papagaio no ar.
A linha quase totalmente estirada produzia na sua mão vibrações pequena que ao seu comando o papagaio subia, descia e com pequenos toques na linha fazia com que ele embicasse ora para a esquerda, ora para a direita.
Já previa a estupefação dos amigos, as exclamações de admiração. Veriam que agora eles tinham um competidor à altura, sorriu satisfeito.
Nisso ao dar um puxão um pouco mais violento, a linha perdeu a força. O pipa estava caindo. Largou a lata de linha e saiu correndo. O campinho não era grande, mas o vento para desespero do garoto arrastou o pipa para o outro lado da rua.
Estava quase perto do pipa caído no asfalto quando viu surgir o carro vindo pelo lado esquerdo. Aflito ele acelerou as pernas e gritando e gesticulando os braços procurou chamar a atenção do motorista.
Porém o veículo aumentou a velocidade não dando oportunidade para que ele chegasse a tempo para salvar o papagaio. Com os olhos fixos cheios de lágrimas pegou os destroços do chão e com passos lentos entrou em casa.
Pastorelli
terça-feira, 14 de dezembro de 2010
Turbilhão
Foto j.almstadter
Angélica T. Almstadter
Sem direção e nenhum freio
eles entram e saem
silenciosos algumas vezes
ou rasgando emoções
arrebentando as comportas
que me banham soluçantes
Liberam alegrias
lembranças doces ou doídas
estimulando
inspirando
deprimindo
Vorazes como a fome
devoram as palavras
que regurgitam
incessantemente
... sobre o alvo papel
vai se livrando delas
uma a uma num ritual
emocionalmente caótico
segunda-feira, 13 de dezembro de 2010
O menino e o tio.

Feito intrépido Rocicler enfrentando a poeirenta estrada, o velho caminhão apelidado carinhosamente de Mazzarope resfolegava em mais uma viagem transportando o pessoal.
Em pé na carroceria junto com os outros, ele se equilibrava numa disfarçada brincadeira para ver quem permaneceria mais tempo em pé. Brincadeira estúpida, não gostava. Preferia ficar deitado no assoalho de tábuas brancas que exalava cheiro de cevada contemplando o céu azul, mas como estavam em mais de vinte pessoas era obrigado a participar dessa brincadeira boba.
Seus olhos castanhos esverdeados claro lembravam os olhos da vó dardejavam um inquieto brilho de raiva, duro, magoado, de quem espera uma oportunidade, e quando ela chegasse não iria perdê-la, ah! não, não iria perdê-la por nada, seria seu passaporte para a vida futura.
A humilhação queimava na mente como ferro em brasa. Os ouvidos martelavam as gozações, as risadas ao verem ele sem calça, nu, pelado na frente de todos. O tio, irmão mais velho da sua mãe, segurando sua calça era quem mais gozava da sua cara. Como odiara o tio, odiara aquele momento. Seus olhos fuzilaram o tio, seus dentes rangeram um contra o outro num ódio imenso. Nada pudera fazer, a não ser se esconder. Num safanão arrancara a calça da mão do tio e fugira. Ah! Ele não perdia por esperar.
Chegavam à cidade.
Parariam na casa do tio como faziam toda vez que havia matança de porcos, para a distribuição do quinhão pertencentes a cada uma das famílias. Era nesse momento que ele iria ter a chance. Era só ficar de olho aberto, vigiando.
Enquanto o velho Mazzarope atravessava a rodovia entrando na cidade, revia os acontecimentos que gostaria nunca ter acontecido. Descendo do caminhão no pátio da fazenda, a primeira coisa que viu foi os porcos sacrificados. Um estava em cima da mesa sendo destrinchado pelas mulheres, o outro boiava num tacho de água super quente, e logo mais adiante, perto do chiqueiro, um terceiro guinchava e se esperneava percebendo seu destino. Por fim, se rendendo deixou-se esfaquear pela mão firme do tio que decidido enterrou fundo a faca pontuda na carne do animal espirrando sangue que fora recolhido numa grande caneca.
E quando arrumavam as coisas para vir embora, o tio teve a infeliz idéia de arrancar sua calça na frente de todos. O que lhe doía não era o fato de ficar nu, as gozações, os deboches, as risadas das meninas, das mulheres, e sim, o não poder se defender, o não poder revidar o tio sendo obrigado ao vexame.
Vigiando os movimentos viu quando o tio ao chegarem foi deitar-se para um pequeno e leve descanso. Esperou até que o tio fechou os olhos e devagar, sem fazer ruído, chegou bem perto. Sentia até o hálito do ronco.
Não esperou mais. Desceu a mão em cheio, foi um tapa estrondoso no rosto do tio que assustado não teve tempo de segurar o sobrinho que em desabalada carreira fugia do quarto.
A partir desse dia nunca mais falou com o tio.
Pastorelli
domingo, 5 de dezembro de 2010
Nódoa
Angélica T. Almstadter
Cuspi a alma em fagulhas,
Sobre a toalha impecavelmente branca.
Com alma sangrei vinho do brinde.
Ficou incrustado no linho mesa,
Sob seu olhar atônito, a marca exata
Da minha mais nobre emoção.
Sei que acalentará com cuidado
Até juntar todos os cacos,
Do meu amor derramado.
Uma taça de esperança tinta,
Para bombear meu coração apagado.
Um silêncio precioso para recompor
O espelho da minh'alma estilhaçada.
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